23 de dezembro de 2014

E se sua chefe dissesse quando você pode engravidar?

Engravidar é algo que pode acontecer de repente ou ser programado. Mas já pensou se outra pessoa programasse sua gravidez sem te consultar? Isso aconteceu em Juiz de Fora, Minas Gerais, onde uma gerente montou uma planilha com datas em que suas funcionárias poderiam engravidar.

Segundo a reportagem da revista Marie Claire, a gerente responsável pela planilha, Janete Velten, chegou a criar uma série de regras para sua equipe. Por exemplo:

“REGRA 1: Quem não casou oficialmente ainda não pode entrar no programa (sou gerente à moda antiga).”

“Regra 2: Quem já tem um filho vai para o final da fila (sou gerente exigente, não aceito furar fila).”

Havia ainda algumas explicações no e-mail que a gerente enviou a suas funcionárias. Se duas colegas preenchessem os critérios ao mesmo tempo, o desempate se daria pelo tempo de carteira assinada. Se a escolhida não usasse sua chance de engravidar, perdia a vez e voltava para o fim da fila.

Na planilha do Excel, em verde estavam os nomes de quem poderia engravidar nos meses seguintes. Em rosa, as autorizadas a fazê-lo mais adiante. Em vermelho, as proibidas.

Assédio à maternidade

O caso – que terminou com Janete e a empresa sendo processadas – serve para ilustrar o assédio à maternidade que acontece em muitos lugares do Brasil e do mundo. Segundo o Coordigualdade, o programa de equidade de gênero do Ministério Público do Trabalho, trabalhadoras continuam sendo preteridas para promoções e viagens pelo fato de terem filhos.


Aumentar a responsabilidade do homem na criação dos bebês pode ser uma forma de combater a cultura do assédio à maternidade que ocorre em muitas empresas.

Nos EUA, a situação é ainda mais institucionalizada. Empresas como Apple e Facebook financiam o congelamento de óvulos para que suas funcionárias programem e adiem suas gravidezes.

Ainda segundo o Coordigualdade, a solução é aumentar a responsabilidade dos homens na criação dos bebês. E em alguns lugares isso já começou a acontecer. Como em Niterói, onde servidores públicos terão direito a uma licença paternidade de 30 dias.

Em São Paulo, um Projeto de Lei também prevê não só a ampliação da licença paternidade para 30, mas também uma licença de 180 dias se os pais forem solteiros ou homossexuais.

17 de dezembro de 2014

Igreja Anglicana anuncia primeira mulher que ocupará o cargo de bispo

A pastora Libby Lane sorri ao ser nomeada a primeira mulher a ocupar o cargo de bispo na Igreja Anglicana nesta quarta-feira (17) (Foto: Phil Noble/Reuters)
A pastora Libby Lane se tornou nesta quarta-feira (17) a primeira mulher nomeada para o cargo de bispo da Igreja da Inglaterra, Anglicana, ao ser nomeada para liderar a diocese de Stockport, no centro da Inglaterra.

"É uma alegria inesperada estar aqui. É um dia marcante para mim e um dia histórico para a Igreja", disse Lane, de 48 anos, após o anúncio.

Antes de pronunciar as primeiras palavras com a nova função, Lane pediu um minuto de silêncio pelas 141 vítimas do ataque dos talibãs contra uma escola do Paquistão na terça-feira (16).

Libby Lane, que toca saxofone, é torcedora do Manchester United e é casada com um sacerdote, foi nomeada um mês depois do sínodo que mudou as regras para permitir a designação. O Parlamento britânico ratificou a mudança.

A aprovação desta reforma pelo sínodo inglês não obriga as outras igrejas anglicanas a ordenar mulheres para o cargo de bispo, mas algumas já haviam se antecipado à Igreja matriz, a da Inglaterra.

A Igreja da Inglaterra, uma cisão da Igreja Católica, é a matriz da comunidade anglicana, que conta com 80 milhões de fiéis em 165 países.

Na Inglaterra, as mulheres podem ser ordenadas sacerdotes desde 1992, mas Gales, Estados Unidos, Austrália, Canadá e Suazilândia se anteciparam na ordenação de mulheres como bispos.

Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/12/igreja-anglicana-anuncia-primeira-mulher-que-ocupara-o-cargo-de-bispo.html

Cai o número de filhos por mulher e sobe o de casais sem filhos no Brasil

O número de filhos por mulher caiu 26% nos últimos 14 anos no Brasil, passando de 2,39 filhos por mulher para 1,77, entre 2000 e 2013. Junto à queda na taxa de fecundidade, aumentou o porcentual de mulheres sem filhos no país, evento que é maior entre as de pele branca, das regiões Sul e Sudeste e mais escolarizadas, segundo a SIS (Síntese de Indicadores Sociais) 2014, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada nesta quarta-feira (17) e baseada em cruzamentos de dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2013.

De acordo com dados da Pnad, em 2013, 38,4% das mulheres de 15 a 49 anos não tinham filho. Entre as mulheres de 25 a 29 anos, no mesmo ano, 40,4% não tinham filho, um aumento de 24% em relação à taxa de fecundidade de mulheres da mesma faixa etária em 2004, quando 32,5% não tinham nenhum filho.

Entre as jovens de 15 a 19 anos, verificou-se que 89,3% não tinham filho em 2013; já no grupo formado pelas mulheres de 45 a 49 anos, 12,5% permaneciam sem filhos.
Nortistas e nordestinas têm mais filhos

Em alguns Estados do Norte e do Nordeste, o índice de fecundidade mostrou-se maior do que a média nacional em 2013, de 2,1 filhos por mulher. No Acre, o maior índice, foi apontado 2,59 filhos por mulher, no Amapá 2,42, no Amazonas, 2,38, emRoraima, 2,34, no Maranhão, 2,28, e no Pará, 2,20.

As menores taxas de fecundidade do país em 2013 estiveram em alguns Estados do Sudeste, Sul e no Distrito Federal.

Em Santa Catarina, o Estado com o menor índice, foi apontado 1,58 filho por mulher, no Distrito Federal, 1,59, no Rio Grande do Sul, 1,60, no Rio de Janeiro, 1,62, em São Paulo e em Minas Gerais, 1,63.
Mulher sem filho: maioria branca e escolarizada

A cor ou raça da mulher e o nível de escolaridade mostrou ter influência também no fato de não ter filho. Em 2013, entre as mulheres brancas de 15 a 49 anos, 41,5% não tinham filhos, enquanto entre as pretas ou pardas o percentual foi de 35,8%.

A diferença proporcional é ainda maior entre as mulheres brancas, comparada às negras de 25 a 29 anos. Enquanto entre as brancas a proporção das mulheres sem filho foi de 48,1%, entre as pretas ou pardas foi de 33,8%.

Em relação à escolaridade, entre as mulheres de 15 a 49 anos de idade com mais de oito anos de estudo, 44,2% não tiveram filhos em 2013, enquanto entre aquelas com até sete anos de estudo essa proporção foi de 21,6%.

A escolaridade entre as mulheres de 25 a 29 anos mostrou uma desproporção ainda maior. Entre as menos escolarizadas, 16,3% não tinha filho, enquanto entre as mais escolarizadas 45,5% não eram mães. A proporção de mulheres entre 45 e 49 anos sem filhos foi de 8,2% em 2013 entre aquelas com menor escolaridade e 15,1% entre as que tinham mais anos de estudo.
Mães jovens estudam menos

Já entre as mulheres mais jovens, as que estudavam mais tinham menos filhos do que as que estudaram por menos tempo. Entre as mulheres de 15 a 17 anos que não tinham filho, 88,4% estavam estudando; enquanto entre aquelas que tinham um filho ou mais, 28,4% estudavam, segundo o levantamento.

Entre as mulheres de 18 a 24 anos, 41,5% daquelas que não tinham filho estavam estudando, enquanto 12,7% não estudavam e não tinham o ensino médio completo, e 45,8% não estudavam, mas tinham pelo menos o ensino médio completo. Na mesma faixa etária, entre aquelas que tinham filho, somente 11,2% estudavam, enquanto 54% não iam à escola, mas tinham cursado o ensino médio incompleto, e 34,8% não estudavam e tinham pelo menos o ensino médio completo.

No grupo de mulheres com 25 a 29 anos, a proporção das que estavam estudando ou daquelas que não estudavam, mas tinham ao menos o ensino médio completo, era maior entre as que não tinham filho.
Cai número de casais com filhos

Em 2013, houve uma queda na proporção de casais com filhos no Brasil em comparação a 2004, quando o porcentual era de 50,9%. Em 2013, houve uma queda de 13,8%, passando para 43,9%.

A redução na proporção de casais com filhos na região Norte foi de 11%, inferior à observada para as demais regiões do país, o que justifica a manutenção de um percentual elevado deste tipo de arranjo familiar em 2013 (47,9%), quando comparado com a região Centro-Oeste (42,8%), por exemplo.

Embora a região Sul possua a maior proporção de famílias compostas por casal sem filho (23% em 2013 em relação a 18% em 2004) a maior variação percentual entre 2004 e 2013 ocorreu na região Norte (com atuais 17,3% ante 12,1% em 2004). O maior crescimento do Norte e Nordeste nos últimos anos, com a incorporação de novos hábitos e valores, pode ser um indicador da mudança, na visão do IBGE.

Como consequência dessas mudanças, cresceu a proporção de casais sem filhos em todas as regiões do país em 2013. Na região Nordeste, passou de 12,9% em 2004 para 17,7% em 2013; no Sudeste foi de 14,8% em 2004 para 19,3% no ano passado e no Sul passou de 18% para 23%.

Esse crescimento foi expressivo nos Estados de Roraima, Tocantins, Piauí e Minas Gerais, quando comparado com 2004, onde a proporção de casais sem filhos era inferior ao observado em Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Taxa de fecundidade das brasileiras
1,77

filho por mulher

foi a média de filhos por mulher no Brasil em 2013
2,39

filhos por mulher

foi a média de filhos por mulher no Brasil em 2004
2,59

filhos por mulher no AC

em 2013, a maior taxa de fecundidade do país
1,58

filhos por mulher em SC

em 2013, a menor taxa de fecundidade do país
38,4%

das mulheres de 15 a 49

anos não tiveram filhos em 2013
41,5%

das brancas até 49 anos

não tiveram filhos em 2013
35,8%

das negras até 49 anos

não tiveram filhos em 2013
44,2%

das mais escolarizadas

de 15 a 49 anos não tiveram filhos em 2013
21,6%

das pouco estudadas

de 15 a 49 anos não tiveram filhos em 2013

Taxa de evasão escolar aumenta quando adolescentes engravidam, diz IBGE

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta quarta-feira (17) mostram que as jovens de 15 a 29 anos que têm filhos enfrentam mais dificuldade para manter seus estudos ou continuar no mercado de trabalho do que as mulheres desta idade que não têm filhos. Segundo os dados cruzados a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), 35% das brasileiras dessa idade têm pelo menos um filho. Divididas em quatro grupos, o das jovens que só estudam, das que trabalham e estudam, das que só trabalham e das que nem trabalham nem estudam, as que têm pelo menos um filho só são maioria no último caso.

Só 14,4% das mulheres de 15 a 29 anos que trabalham e estudam têm filhos. Decidar-se apenas aos estudos depois de ter um ou mais filhos parece uma tarefa ainda mais difícil, de acordo com a pesquisa. Entre as jovens dessa idade que só estudam, as que são mães respondem por apenas 7,1% do total de matrículas. Segundo o IBGE, 44% das jovens que trabalham e estudam também são mães.

Mas a mães adolescentes ou jovens representam 57,1% das mulheres de 15 a 29 anos que não têm nem um emprego nem estão estudando.

Considerando os dois gêneros, a proporção dos jovens de 15 a 29 anos que só estudavam foi de 22,7% em 2013. Já a porcentagem daqueles que trabalhavam e estudavam foi de 13%. Jovens que só trabalhavam respondiam por 44,% dos entrevistados, e, segundo o IBGE, praticamente um em cada cinco jovens nessa faixa etária não frequentava escola nem trabalhava. Entre os jovens nesta situação, 45,8% vivem no Nordeste ou no Norte.

Afazeres domésticos

Os homens de 15 a 29 anos continuam contribuindo menos para os afazeres domésticos do que as mulheres da mesma idade. Segundo o IBGE, 40,8% deles afirmaram que cuidavam de afazeres domésticos na semana de referência da Pnad. Entre as mulheres, essa porcentagem subiu para 82,4%.

Em média, as mulheres trabalham 20,2 horas por semana no cuidado da casa, mais que o dobro da quantidade média de 9,2 horas que os homens jovens dedicavam a esses afazeres toda semana.

Os homens que não trabalham nem estudam são também os que menos ajudam em casa. Segundo a Pnad 2013, só 39,3% deles cuidavam dos afazeres domésticos no ano passado. Os que mais ajudam são os homens jovens que só se dedicam aos estudos (42%).

Já entre as mulheres, entre as que têm trabalho e estudos na rotina diária, 74,6% também cuidavam dos afazeres de casa. Das que só estudam, 77,9% ajudavam em casa. As mulheres de 15 a 29 anos que só trabalham também cuidam da casa, assim como 89,2% das mulheres que afirmaram estarem fora do mercado de trabalho e da sala de aula.

Ana Carolina Moreno

Mulher no Parlamento: Brasil ocupa 123º lugar

Da diretora da escola à presidente da nação, é comum ver mulheres desempenhando papel de liderança no dia a dia. A impressão que se tem é de que as mulheres “chegaram lá”, mas, quando se avalia os dados numéricos de mulheres exercendo as funções mais elevadas na vida pública, vê-se que, na verdade, as mulheres, em sua maioria, ainda estão fora do poder. O mesmo acontece no Judiciário e no ambiente corporativo. De acordo com o ranking da representação feminina no Parlamento de 189países – feito pela União Inter-Parlamentar (IPU) conforme o porcentual de mulheres nos Parlamentos nacionais –, o Brasil está na 123ª posição. Países da América Latina como Bolívia (2º), Cuba (4º), Nicarágua (9º) e Equador (10º) estão bem à frente do País, segundo dados de novembro de 2014.

Nas eleições mais recentes, de 2014 e 2012, Suely Campos (PP-RR) foi a única governadora eleita no Brasil. Será a primeira vez que Roraima, o menor colégio eleitoral do Brasil, será comandado por uma mulher. Esse resultado faz parte de um universo de 22.168 candidaturas para as eleições ocorridas em outubro deste ano. No cômputo geral, os porcentuais ficaram próximos ao exigido pela legislação, que é de pelo menos 30% para um dos gêneros. Ocorre que o gênero feminino é o que sempre fica com a minoria das vagas. Neste ano, a divisão foi de 28,71% para mulheres e 71,29% para os homens. Em 2010, Roseana Sarney (PMDB-MA) e Rosalba Ciarlini (DEM-RN) saíram vencedoras.

Quando é feita a divisão por cargos, tanto entre candidaturas quanto entre os eleitos, é possível ver a discrepância entre a participação da mulher em termos populacionais e eleitorais e a sua representação no Executivo e no Legislativo. Na disputa pela Presidência da República, oito homens (72,73%) e três mulheres (27,27%) se dispuseram a participar. A diferença, nesse caso, foi que duas mulheres, Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB), estiveram durante quase todo o tempo entre os três com mais intenções de voto. Ao final, a presidente Dilma Rousseff foi reeleita. Ela entrou para a história como a primeira mulher eleita presidente do Brasil e a primeira a ser reeleita.

Dos 163 candidatos a governador em todo o Brasil, 19 (11,66%) eram mulheres e 144 (88,34%), homens. Apenas uma conseguiu se eleger. O que representa 5,26% das candidatas do sexo feminino. O total de candidaturas para senador foi quase o mesmo: 165, sendo 131 homens (79,39%) e 34 mulheres (20,61%). Como só havia uma vaga por Estado, 27 senadores foram eleitos: cinco mulheres (18,52%) e 22 homens (81,48%). A partir de 2015, o Senado passará a contar com um total de 11 mulheres. A porcentagem de candidaturas femininas ao Senado e aos governos estaduais se manteve estável nas duas últimas eleições.

A ex-deputada federal e ex-candidata ao Senado pelo Partido dos Trabalhadores (PT) Marina Sant’Anna chama a atenção para o tempo reduzido de participação dos trabalhadores e das mulheres na história republicana do Brasil. Embora a eleição da primeira prefeita do Brasil e da América Latina, Luíza Alziro Soriano Teixeira, tenha ocorrido em 1928, e a posse, em 1929, as mulheres brasileiras só conquistaram o direito ao voto em 1932. Luíza Soriano ficou no cargo, em Lajes, no Rio Grande do Norte, durante sete meses. Foi destituída por não concordar com o governo Getulio Vargas.

“O Brasil está em posição de atraso em relação ao resto do mundo, mas está em condições de busca crescente para que o número de mulheres seja ampliado no contexto não só do Legislativo e do Executivo, mas também nas organizações da sociedade civil”, acredita Marina. Ela conta ter o costume de observar a composição das mesas em solenidades e eventos importantes. “Dificilmente é possível ver pelo menos um terço de mulheres nessas mesas”, diz.

Espaço da mulher aumenta devagar

O Brasil tem avançado, ainda que lentamente. Nas eleições de 2010, 45 deputadas federais foram eleitas. Neste ano, o número passou para 51 (9,95%) entre 513 escolhidos pelo eleitorado. A corrida já começou desigual no número de candidaturas. Das 5.940, 4.204 (70,77%) eram de homens e 1.736 (29,23%), de mulheres. Em Goiás, o índice é parecido. Dos 17 escolhidos para a Câmara federal, 15 são homens e duas (11,76%), mulheres.

Flávia Morais (PDT) obteve a terceira melhor votação geral, com 159.122 votos. Atrás do fenômeno de votação delegado Valdir Soares, do PSDB (274.625 votos), e de Daniel Vilela, promessa de renovação do PMDB (179.214). Magda Mofatto (PR-GO) ficou com a quinta posição, com 118.458 votos. O mesmo número de eleitas em 2010, quando Iris Araújo (PMDB) foi a mais votada (185.934). Flávia Morais conseguiu 152.553 votos. Magda Mofatto não foi eleita, mas acabou assumindo uma cadeira na Câmara, como suplente, em 2011. O mesmo aconteceu com Marina Sant’Anna (PT), que ficou como deputada entre 2011 e 2013.

Assim como acontece na Câmara, as mulheres (115) são 11% das deputadas estaduais eleitas em todo o País. O porcentual de candidaturas ficou dividido entre 10.250 homens e 4.177 mulheres (28,95%). Este ano, em Goiás, quatro mulheres (9,76%) foram escolhidas pelos eleitores, de um total de 41 parlamentares. A petista Adriana Accorsi participou de uma eleição pela primeira vez e foi a terceira melhor votada, com 43.424 votos.

Partidos têm condições de eleger governadora ou prefeita, diz petista

Na avaliação de Marina Sant’Anna, todos os partidos goianos têm condições de ter mulheres como prefeita de Goiânia ou governadora do Estado de Goiás. Algumas foram queimadas dentro dos próprios partidos. “Mas é preciso haver um pouco de mudança cultural para que isso ocorra e a redução de dependência de um líder patriarcal”, afirma.

Ela cita Adriana Accorsi (PT) como um dos exemplos no próprio partido, que obteve uma votação expressiva como deputada estadual, já na sua primeira eleição, tornando-se a primeira deputada estadual do PT.

Marina Sant’Anna comenta que, pela história e amizade das duas, nunca irão competir pelo mesma candidatura. Ela diz também que há outras mulheres capacitadas na sigla, sem citar nomes. “Ainda não começamos a tratar disso no partido, mas o nome da Adriana me agrada muito e eu estou sempre disponível para o partido”.

Estudo

Há mais de 30 anos na vida pública, Marina tem dedicado bastante tempo em observações e estudos sobre mulheres e poder. Ela listou alguns dos possíveis motivos para o distanciamento da mulher da vida pública. Um deles é a formação da maioria das mulheres, que a coloca em situação de sensibilidade diante de alguns aspectos da política como a agressividade do discurso e, principalmente, a má conduta de alguns políticos, independentemente do partido que representam.

Sem contar que, embora haja mulheres nas bases, elas não são vistas como representantes viáveis e o partido não dá oportunidade a elas. “O mesmo acontece com os jovens, à exceção de filhos de personalidades políticas, e de negros e negras. O que existe e se perpetua no poder são homens brancos, com determinado patrimônio e determinada conduta”, avalia.

Compromissos familiares ainda pesam nas decisões

O fato de a mulher continuar sendo responsável no núcleo familiar, pelos que dependem de adultos, como crianças, idosos e doentes, é outro impeditivo para a mulher aderir à vida pública, já que o seu tempo fica ainda mais reduzido. Marina Sant’Anna destaca que mesmo nos casos, cada vez menores, de mulheres que têm empregada doméstica, a situação se repete e de certa forma fica ainda pior, já que se torna cíclica. “Aquele trabalho continuará sendo realizado por uma mulher, que também tem família e também precisará de alguém em casa”, explica.

Marina acredita que, além do trabalho de atração e formação de novas lideranças nas bases dos partidos, a reforma política é fundamental no sentido de contribuir para a mulher conquistar mais espaço. Para ela, o financiamento público de campanha ou, pelo menos, a retirada das empresas do financiamento de campanha, já ajudariam, pois o poder econômico de algumas candidaturas deixaria de ter tanta relevância.

“Para as mulheres, jovens, negros, homossexuais que queiram também ser representantes públicos é importante demais ter algum tipo de lista partidária, que possibilitaria que o financiamento de campanha seja colocado a serviço de todos”, defende a ex-deputada.

A paridade de gêneros é outro ponto que ela acredita ser importante. “Nós somos 52% da população e do eleitorado. Significa que deve ter em uma lista uma mulher, um homem, e assim por diante. Tenho certeza de que não haverá dificuldade em encontrar uma mulher preparada, pois elas existem em todos os lugares, embora muitas não queiram fazer parte desse jogo do sistema eleitoral existente”, diz.

Menos de 5% dos cargos em empresas

Assim como acontece no Legislativo, o número de mulheres a ocupar os cargos principais em empresas é reduzido no Brasil. Inferior a 5%, segundo a presidente da Associação Comercial e Industrial do Estado de Goiás (Acieg), Helenir Queiroz. Mas ela vê o cenário com otimismo. “Cerca de 15 anos atrás era traço (quase inexistente)”, afirma. A empresária se tornou a primeira mulher a presidir a Acieg em 78 anos de existência da entidade classista. Ela também é a primeira a presidir o Fórum Empresarial de Goiás.

“Tenho 62 anos. A minha geração foi educada para ficar em casa”, diz a empresária, para quem esses avanços tendem a ser cada vez mais rápidos. Para Helenir, quanto mais a sociedade amadurece e evolui, maior e mais relevante é a participação da mulher.

A líder classista alerta, no entanto, para um problema comum a muitas mulheres: a culpa que sentem por se ausentar do lar para trabalhar. “Essa é uma questão cultural, uma espécie de freio psicológico. A mulher não precisa escolher entre o crescimento profissional e a maternidade. Há tempo para tudo e dá tempo de fazer tudo”, conclui.

Versanna Carvalho

Em 30 anos, aumentou em 230% o número de mulheres assassinadas no Brasil, diz ONU

Profissionais de segurança pública e de polícia se reuniram em Brasília na última semana para discutir os assassinatos de mulheres no Brasil. O encontro de dois dias foi promovido pela ONU Mulheres, pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) e pelo Ministério da Justiça.

O principal objetivo do evento, realizado entre os dias 09 e 10 de dezembro, foi debater a adaptação do Modelo de Protocolo Latino-americano para Investigação das Mortes Violentas por Razões de Gênero, proposto pela ONU Mulheres e pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH) no marco da campanha do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, “Una-se pelo fim da violência contra as mulheres”.

“Os crimes de feminicídio têm devastado o Brasil. São praticados com requintes de crueldade e terror pela carga de ódio, na sua grande maioria, quando as mulheres decidem dar um basta numa relação. Elas são interpeladas do direito de decidir sobre as suas vidas, com quem vão se relacionar e a maneira como a relação afetiva vai terminar’, disse a representante da ONU Mulheres Brasil, Nadine Gasman.

Mais de 92 mil mulheres foram assassinadas no Brasil entre 1980 e 2010 – o que representa um aumento de 230% no número de mortes femininas por questões de gênero neste período. Atualmente, 5 mil mulheres são assassinadas ao ano no país, que ocupa o 7º lugar no ranking internacional de 84 países sobre esse tipo de crime.

Os especialistas presentes na reunião ressaltaram a importância do protocolo de investigação de mortes violentas femininas por razão de gênero para aprimorar os processos de perícia, de investigação e de penalização no Brasil, uma vez que vai oferecer diretrizes para a identificação e a compreensão das ações de violência que correspondem aos crimes de gênero.

Além disso, a tipificação do feminicídio como qualificadora do assassinato de mulheres no Código Penal já foi proposta por meio de um projeto de lei em tramitação no senado brasileiro, uma das 68 recomendações da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Violência contra a Mulher no Brasil.

Tarefas de casa ocupam 88% das mulheres e 46% dos homens, diz IBGE

Os afazeres domésticos são encargo para 88% das mulheres de 16 anos ou mais com trabalho, de acordo com estudo do IBGE divulgado nesta quarta (17), dentro da Síntese de Indicadores Sociais. Já a taxa de homens nessas condições é bem menor: 46%.

A jornada média, entre tarefas da casa e o emprego, é de 56,4 horas por semana entre as mulheres, o que representa cinco horas a mais em relação aos homens que se ocupam dos dois compromissos.

Mulheres ganham menos

As mulheres, em média, recebem menos que os homens em todas as formas de ocupação. A desigualdade se acentua nos trabalhos informais: ganham 65% do rendimento que têm os homens sem carteira assinada. No trabalho formal, a proporção é de 75%.

Mas a diferença vem diminuindo. Entre 2004 e 2013 melhorou o rendimento das mulheres com trabalho informal, o que contribuiu para a redução da desigualdade entre sexos.

Mulheres com até oito anos de estudo ganham 90% do que recebem homens no mesmo patamar de escolaridade. Acima dos oito anos de estudo, a relação cai para 71%. Considera 12 anos ou mais de estudo, o rendimento-hora das mulheres é 66% dos homens.

11 de dezembro de 2014

Para líderes partidárias, só reforma aumentará participação política das mulheres

As lideranças femininas dos partidos avaliam que, sem a reforma política, as mulheres dificilmente vão alcançar uma representação de 30% na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, mínimo exigido por lei. Elas concordam, no entanto, com que houve avanços nos últimos anos. A avaliação foi feita durante o Fórum Nacional de Instâncias de Mulheres de Partidos Políticos, realizado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM-PR) nesta terça-feira (09/12), em Brasília. 

O evento, organizado pela Secretaria de Articulação Institucional e Ações Temáticas da SPM, foi aberto pela ministra da SPM Eleonora Menicucci e contou com a participação de integrantes das instâncias partidárias, da Secretaria da Mulher e da bancada feminina da Câmara dos deputados e da Procuradoria da Mulher do Senado. A ministra informou que está enviando carta aos governadores eleitos e reeleitos na qual defende a importância de, conforme o caso, manter ou criar uma secretaria da mulher na gestão estadual.

As representantes das instâncias partidárias também vão defender a proposta junto aos governadores de seus partidos. A gestão do programa Mulher, Viver sem Violência é partilhada com os estados.

Baixo crescimento –Liège Rocha, do PCdoB, afirmou que as cotas de 30% para candidaturas de mulheres (exigência da legislação) não bastam, devido ao machismo no Brasil. “Apesar do número de candidatas inscritas, não houve o crescimento esperado”, observou. Foram eleitas 51 deputadas federais. A bancada atual na Câmara dos Deputados é composta por 47 mulheres. No Senado, foram eleitas cinco senadoras, elevando o número de mulheres para 12, que representam 18,5% da composição.

Coordenadora da bancada feminina na Câmara dos Deputados, Jô Moraes (PCdoB-MG), declarou que o avanço feminino no Congresso Nacional não correspondeu às conquistas de políticas públicas para as mulheres, ocorridas nos últimos anos. Ela citou como exemplo as iniciativas de combate à violência contra as mulheres. A parlamentar reeleita alerta que as lideranças têm desafios pela frente: “É preciso cobrarmos do prefeitos que não devolvam recursos destinados à construção de creches”, afirmou.

Integrante do PPS, Tereza Vitale disse que o estatuto do partido prevê ocupação de 30% de mulheres em suas instâncias, e que sua agremiação elegeu duas deputadas federais. “Mas o partido não investiu nessas candidaturas. Foram elas que se viraram”.

Fundo partidário –Tereza Vitale acrescentou que as cotas deram um impulso muito grande nas candidaturas femininas, mas que 5% do fundo partidário para investimento nas mulheres é baixo. Tanto ela, quanto Laisy Moriere, do PT, Liège Rocha, Jô Moraes, Alda Marcantônio –eleita deputada federal pelo PSB de São Paulo– e Ericka Nogueira, do PMDB, defendem a reforma política como instrumento necessário à elevação do número de mulheres com vitórias nas eleições.

Ericka Nogueira contou que seu partido já começou a discutir a reforma política em todos os estados, inclusive contratando consultores. Mas quando as lideranças femininas do PMDB começaram a participar, descobriram que a questão de gênero não estava colocada nas propostas em debate

Comunicação Social
Secretaria de Políticas para as Mulheres – SPM
Presidência da República – PR

http://www.spm.gov.br/noticias/para-lideres-partidarias-so-reforma-aumentara-participacao-politica-das-mulheres

ENTRE MARIAS, CLARICES E KARINNYS. VIOLÊNCIA E DESIGUALDADES DE GÊNERO.

Na história da humanidade, os papéis sociais e sexuais separaram homens e mulheres. Homens assumiram papéis de comando e se tornaram provedores e patriarcas: senhores da sociedade e de suas famílias. Às mulheres sobraram papéis secundários, obediência, recato e repressão.

Esse modelo de sociedade patriarcal se estruturou sob o silenciamento da mulher, a violência e a desigualdade de gênero. O resultado é que foram produzidas variadas formas de violência que se estruturaram nesse modelo de patriarcalismo, configurado no aprendizado da submissão e da ordem estabelecida: nas brincadeiras de crianças, no trabalho doméstico, na dupla moralidade em que se estruturou a sociedade machista.

Aos homens, tudo foi permitido: ter mulheres e amantes, constituir famílias fora do casamento, convidar e trazer mulheres para seus relacionamentos. Porém, os preconceitos respingavam sobre as concobinas, as amantes e os filhos nascidos fora do casamento, nada colava no homem. Um modelo de cultura perversa e autoritária que justificou inclusive o crime praticado contra mulheres em caso de adultério feminino.

Assim, a violência contra a mulher foi banalizada, pois um homem que matava sua mulher adultera apenas lavava e limpava a sua honra. Em pleno século XXI muitas mulheres continuam sendo assassinadas e perseguidas, mesmo que não se use mais a tese de legítima defesa da honra. Novos homens, herdeiros do machismo e do autoritarismo dos velhos coronéis, continuam intimidando, perseguindo, buscando destruir a imagem das mulheres que não mais se submetem aos seus domínios e interesses privados.

A violência física, psicológica, a alienação parental, a intimidação ainda são parte importante de relações doentias que se mantém mesmo com o fim dos namoros, casamentos e uniões estáveis, incendiadas pelo rancor, pelo ódio, pela luta pelo patrimônio. Riquezas construídas com o trabalho da mulher, mesmo quando esse trabalho foi o de cuidar da casa e dos filhos. O desejo de destruição do outro, em geral da mulher, é o processo central desse processo de desumanização.

Nesse processo doentio se desumanizam homens e mulheres na ausência de um modelo restaurativo de solução de conflitos, pois independente de nossos “pecados” e “desvios” continuamos humanos: pais, mães, filhos, filhas, irmãos e irmães, humanos (as), fortes e frágeis.

Marias, Clarices e Karinnys e tantas outras mulheres vítimas da desigualdade de gênero continuam sendo assassinadas, torturadas, ameaçadas, julgadas e tem sua imagem pública e privada destruída quando não mais correspondem as expectativas sociais e sexuais para as quais foram “destinadas”.

Diante de situações práticas como a que acompanhamos recentemente com uma estudante de nossa universidade, percebemos o quanto essa desigualdade se acentua diante de estruturas de poder estabelecidas e o quanto a vulnerabilidade se acentua com a omissão de quem deveria defender o hiposuficente e ao contrário o persegue. Até quando?

Mais que buscar culpados e vinganças, o desejo de restaurar a humanidade perdida pelos seres envolvidos nestas tragédias deveria ser também uma preocupação central do nosso sistema de justiça!!!!

Ana Maria de Barros* é Profa. Adjunta III da UFPE, Coordenadora da Licenciatura Intercultural Indígena da UFPE, Professora do Mestrado em Direitos Humanos CAC- UFPE e Vice- Líder do Grupo de Pesquisa: Educação, Inclusão Social e Direitos Humanos – UFPE/ CNPq.
Fonte: http://marchamulheres.wordpress.com/2014/12/09/entre-marias-clarices-e-karinnys-violencia-e-desigualdade-de-genero/

26 de novembro de 2014

Adolescente indiana morre depois de ser queimada por resistir a ser tocada

Uma adolescente de 15 anos morreu na Índia uma semana depois de um grupo de homens ter ateado fogo na jovem por sua resistência a ser tocada, informou a polícia.

As forças de segurança prenderam quatro homens após o crime, que aconteceu quando a jovem saiu de casa em 16 de novembro no estado de Uttar Pradesh (norte).

A família da vítima informou à polícia que seis homens a forçaram a entrar na casa depois que ela manifestou contrariedade aos gestos lascivos e às tentativas de toque do grupo.

Os homens jogaram querosene no corpo da adolescente e atearam fogo como forma de 'punição', segundo a família. O crime aconteceu no vilarejo de Shahjahanpur.

A jovem foi levada para um hospital, mas não resistiu aos ferimentos e faleceu no domingo, segundo o chefe de polícia local, RK Sahu.

A polícia procura os outros dois homens envolvidos no crime que ainda não foram detidos.

Vários casos de estupro em grupo provocaram indignação dentro e fora da Índia. Um deles, o de uma estudante de 23 anos que morreu depois de ser violentada em um ônibus de Nova Délhi em dezembro de 2012, provocou muitas manifestações e resultou em leis mais rígidas contra os autores de crimes sexuais. Mas os ataques continuam muito frequentes.
Fonte: https://br.noticias.yahoo.com/adolescente-indiana-morre-ser-queimada-resistir-ser-tocada-102225072.html

25 de novembro: Eliminação da violência contra as mulheres requer mobilização permanente

No dia escolhido mundialmente para promover uma mobilização pela eliminação da violência contra as mulheres, o 25 de novembro, especialistas entrevistados pela Agência Patrícia Galvão alertam que enfrentar a chamada violência de gênero - que coloca em risco mulheres de diferentes realidades, países, idades, condições socioculturais e econômicas – é um desafio permanente.

Para marcar a data, dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgados na última sexta-feira (21/11) assinalaram a gravidade do problema: os estudos indicam que uma em cada três mulheres no mundo é vítima de violência conjugal. Além da violência doméstica, a OMS estima que entre 100 e 140 milhões de mulheres sofreram mutilações genitais, 70 milhões de meninas se casaram antes dos 18 anos e 7% das mulheres correm risco de ser vítimas de estupro ao longo da vida.

Única brasileira a participar da série de estudos da OMS, a médica e professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP, Ana Flávia D’Oliveira, avalia que a invisibilidade contribui para que a violência de gênero se perpetue na sociedade.

“Apesar de frequentes, poucos casos de violência sexual chegam a público porque as vítimas podem ter vergonha, podem ser ameaçadas se denunciarem, podem ser culpabilizadas pela própria vitimização (como no caso de serem acusadas por determinados comportamentos, como beber ou usar determinadas roupas). A falta de reconhecimento do problema, canais acolhedores para denúncia e responsabilização do agressor aumentam a invisibilidade”, exemplifica.

Cenário preocupante

No Brasil, a situação não é menos grave: segundo a oitava edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o número total de estupros registrados em 2013 chegou a 50.320, uma média de quase seis a cada hora, um a cada 10 minutos. Porém, esse número pode ser ainda maior, uma vez que, segundo o documento, pesquisas internacionais indicam que apenas 35% das vítimas de estupro costumam denunciar o crime à Polícia. Isso significa que é possível que no Brasil tenham sido cometidos 143 mil estupros em 2013, de acordo com estimativas do Anuário, o que elevaria o número desse tipo de violência para um a cada 4 minutos.

Com uma taxa de 4,4 assassinatos em 100 mil mulheres, o Brasil também está entre os países com maior índice de homicídios femininos: ocupa a sétima posição em um ranking de 84 nações, segundo dados doMapa da Violência 2012 (Cebela/Flacso).

Nos primeiros seis meses de 2014, a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 realizou 265.351 atendimentos, sendo que as denúncias de violência corresponderam a 11% dos registros – ou seja, foram reportados 30.625 casos – somente por essa via em seis meses. Em 94% dos casos, o autor da agressão foi o parceiro, ex ou um familiar da vítima.

Para coibir a violência contra as mulheres na sociedade brasileira, além de garantir os direitos em casos em que a violência já aconteceu, com acolhimento das vítimas e responsabilização dos agressores, é preciso atuar também para que ela não aconteça, promovendo a reflexão e o debate público sobre esta grave violação de direitos humanos.

Nesse sentido, a professora Ana Flávia aponta como primeiro desafio tirar os casos da invisibilidade e conscientizar sobre as desigualdades existentes entre homens e mulheres, revertendo discriminações baseadas no gênero, que se articulam com outros marcadores sociais como raça e classe social, gerando violações à integridade física, moral ou psicológica da mulher.

Violência e gênero

De acordo com a antropóloga e pesquisadora da USP Beatriz Accioly, a violência de gênero está associada a convenções do que se espera de homens e mulheres na sociedade. “Quando falamos de gênero, que são essas construções sociais acerca do que é masculino e do que é feminino, estamos olhando para certas características que, associadas ao masculino e feminino, favorecem violências”, explica.

Associar, por exemplo, a feminilidade a uma ideia de manutenção do relacionamento, de que todas as mulheres gostam de ter relacionamentos, de estar casadas, e de que são elas as responsáveis por manter os vínculos e fazer as relações afetivas durarem acaba estimulando que se fique em uma relação independentemente da qualidade ou até da violência doméstica. “Também, por exemplo, quando se associa masculinidade à agressividade, a resolver atritos de uma forma mais truculenta, isso também favorece a violência de gênero”, exemplifica a pesquisadora, que integra o Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença da Universidade de São Paulo (USP).

Nos casos de violência sexual, é bastante comum, por exemplo, que se menospreze a gravidade do crime culpando a própria vítima pela violência sofrida. “A questão de gênero na violência sexual aparece muito associada ao que se espera de uma moralidade de uma mulher ‘recatada’. Então, se a mulher não obedece aquilo que se espera dela do ponto de vista de uma moral sexual, ela está em risco e talvez acabe sendo culpada pela própria violência que sofreu”, aponta.

Esses supostos papéis associados ao masculino e feminino que, carregados de desigualdades, contribuem para que as mulheres estejam mais expostas a certos tipos de violência, como a doméstica e a sexual, são naturalizados e reproduzidos, muitas vezes, pelos próprios profissionais envolvidos nos serviços de proteção às mulheres.

Em entrevista ao Informativo Compromisso e Atitude, a defensora pública de São Paulo, Juliana Belloque, aponta a falta de compreensão das discriminações de gênero como uma das principais barreiras para o acesso das mulheres à Justiça nas diferentes realidades em que vivem as brasileiras.

“Um dos grandes desafios que permanecem – e não só no que diz respeito ao Poder Judiciário, mas à sociedade como um todo – é a assimilação e a compreensão do conceito de gênero para podermos enfrentar de uma forma mais completa a questão da discriminação. E os juízes e juízas, assim como promotores, defensores, advogados e todos aqueles que trabalham com essas questões, são homens e mulheres inseridos no contexto cultural”, pontua.

Prevenção

Para Beatriz Accioly, o enfrentamento da discriminação baseada no gênero requer um esforço coletivo, que envolve várias iniciativas, passando pelos campos da educação, da legislação, do poder público, e também dos movimentos sociais e organizações da sociedade civil.

Segundo a antropóloga, as leis especificas, como a Lei Maria da Penha, têm importante papel pedagógico para dizer que a violência não é uma saída. “A sociedade brasileira vê a violência como uma forma pedagógica e de resolução de conflitos no ambiente familiar. Punem-se a criança, a mulher, o idoso – aqueles que você acha que estão em situação de desvantagem e que ‘podem ser educado’. Então, para o agressor, muitas vezes, há uma motivação que ele acredita ser justa e a questão é você sinalizar com a lei mostrando que não existe violência legítima – ou seja, que ela não é uma forma legítima de resolver conflitos familiares e afetivos”, explica.

O papel da educação também é fundamental, aponta a especialista. “Entendendo que o gênero é aprendido, desde o momento mais inicial, desde a infância, é preciso pensar uma educação de gênero que não seja normativa, nem excludente, e que não favoreça assimetrias, desigualdades e violências”, frisa.

As redes sociais e a internet também têm sido importantes para circulação de relatos de vitimas e para criação de redes de apoio às mulheres. “O anonimato da internet, ao mesmo tempo que favorece certas violências, permite que as pessoas falem sobre o que aconteceu com elas e isso é super importante”, afirma.
Contatos

Ana Flávia D’Oliveira – Doutora, professora do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP
(11) 3061-7085 ou 3061-7285 - vawbr@usp.br/ aflolive@usp.br

Beatriz Accioly – antropóloga, pesquisadora do Núcleo de Estudos sobre Marcadores Sociais da Diferença do Departamento de Antropologia da FFLCH/USP
bia.accioly.lins@gmail.com

Hackers usam tecnologia para combater violência contra a mulher

Hackers, programadores e especialistas em assuntos relacionados a gênero começaram nesta terça-feira (25) a trabalhar efetivamente nos 22 aplicativos que vão usar tecnologias digitais para traduzir dados públicos de maneira útil e acessível a qualquer pessoa.

Reunidos no Salão Branco da Câmara dos Deputados, eles participam da 2ª edição do Hackathon - espécie de maratona colaborativa que desafia desenvolvedores de soluções digitais. Neste ano, os 47 participantes deverão criar aplicativos para ampliar a transparência de dados públicos sobre “violência contra a mulher” e sobre “políticas públicas de gênero e cidadania”.

Uma dos projetos de aplicativo, por exemplo, pretende fornecer informações úteis sobre a violência obstétrica, que envolve agressões físicas ou emocionais de gestantes por parte dos profissionais da área da saúde.

“Nosso objetivo é criar um aplicativo para celular que permita às mulheres se informar sobre o que é a violência obstétrica, como se proteger e também para incentivar o parto humanizado”, explica a Marcela Oliveira, que veio de Maceió para participar do Hackthon. Segundo ela, a ferramenta vai funcionar como uma espécie de rede social, permitindo que as próprias mulheres possam compartilhar informações e experiências com outras gestantes.

Especialistas

Coordenador do evento, Cristiano Ferri destaca que a novidade da edição deste ano é a participação de especialistas de outras áreas, como sociólogos e antropólogos, que já pensam e discutem a questão de gênero. “Como esses jovens são especialistas em questões de gênero e dominam as mágicas da tecnologia muito bem, vão conseguir facilitar a compreensão de dados importantes utilizando aplicativos e até jogos”, disse.

Para a coordenadora de Acesso à Justiça e Combate à Violência da Secretaria de Diretos da Mulher da Presidência da República, Aline Yamamoto, eventos como o Hackathon podem resultar em ferramentas importantes no combate a problemas sérios, como a violência contra a mulher.

“Essa iniciativa de aplicativo cria uma rede de apoio às mulheres e é uma forma de mostrar como podem buscar seus diretos e quais são os serviços que podem atendê-las nas áreas de saúde, justiça e assistência social”, apontou. Segundo Yamamoto, o Brasil ocupa atualmente a 7ª posição no ranking de países com maior número de assassinatos e mortes violentas de mulheres.

Tecnologia


A deputada Rosane Ferreira (PV-PR) defendeu o potencial das tecnologias digitais como meios de acesso à informação. “Hoje não dá para dispensar a linguagem da internet. É uma linguagem universal, que permeia todas as classes sociais. É mais um instrumento de enfrentamento contra a violência de gênero e contra a violência doméstica que assolam o nosso País”, afirmou.

Outro aplicativo em desenvolvimento nesta semana é o Myrthes, que cria uma rede social para troca de informações entre mulheres vítimas de violência e advogados. Conforme Mônica Monteiro, que participa do grupo responsável pelo aplicativo, a ideia é que as mulheres possam tirar dúvidas e se orientar sobre o que fazer caso a caso. “O objetivo é instruir as mulheres para incentivá-las a criar o hábito de denunciar”, apontou.

Mônica Monteiro acrescentou que o grupo estuda parcerias com universidades e com advogados que já são engajados na defesa dos direitos da mulher.

O Hackthon se encerra na sexta-feira (28) e vai premiar os autores dos dois projetos vencedores com passagem e hospedagem para participar de um encontro sobre projetos de Democracia Digital na sede do Banco Mundial, em Washington, nos Estados Unidos.

Murilo Souza

Mulheres negras são 60% das mães mortas durante partos no SUS.

Ministério da Saúde lança nesta terça-feira uma campanha para coibir o racismo no atendimento público de saúde. O governo apresentou dados que mostram que negros estão mais expostos a doenças e mortes que brancos. Além disso, os negros têm acesso a um serviço inferior. Segundo o ministério, 60% da mortalidade materna ocorre entre mulheres negras, contra 34% da mortalidade entre mães brancas. Entre as atendidas pelo SUS, 56% das gestantes negras e 55% das pardas afirmaram que realizaram menos consultas pré-natal do que as brancas. A orientação sobre amamentação só chegou a 62% das negras atendidas pelo SUS, enquanto que 78% das brancas tiveram acesso a esse mesmo serviço.


— Ser diferente é uma coisa. Agora, isso transbordar para manifestações de preconceito, de racismo, que faça com que uma mulher negra se submeta à dor, a um tempo de espera ou que receba um grau de orientação sobre aleitamento materno diferente do que uma mulher branca é absolutamente inaceitável — afirmou o ministro da Saúde, Arthur Chioro em entrevista coletiva após a cerimônia de lançamento da campanha.

Sob o slogan “Não fique em silêncio. Racismo faz mal à saúde”, o governo criou o Disque 136 para receber denúncias. Dependendo do ato praticado contra o paciente, o profissional de saúde acusado pode ter contra ele aberto um procedimento administrativo e até ser punido legalmente, já que racismo é crime.

Outro objetivo da iniciativa é alertar que os negros são mais suscetíveis a doenças como anemia falciforme. Casos de diabetes e hipertensão também são mais severos entre os negros. O Disque 136 também contará, segundo Chioro, com profissionais treinados a dar informações como essas aos pacientes.

A cerimônia contou com a participação de um grupo de pais e mães de santo que fez saudação aos orixás. Uma representante da comunidade candomblecista disse que já ouviu relatos de mulheres negras que, durante o parto na rede pública, foram censuradas pelo profissional que realizava o procedimento com afirmações como: “na hora de fazer, você não reclamou, né?”

A campanha estará no ar de hoje até o dia 30 com spots no rádio e da TV. Os clubes Atlético Mineiro e Corinthians vão colocar banners na campanha em seus estádios.

Catarina Alencastro 

19 de novembro de 2014

ÍNDIA ACABA COM O VETO A MULHERES MAQUIADORAS EM BOLLYWOOD

Proibição mulheres maquiadoras em Bollywood já perdurava 59 anos.
Foto: BBC Proibição mulheres maquiadoras em Bollywood já perdurava 59 anos.

A Suprema Corte da Índia declarou inconstitucional um veto sindical que há 59 anos proibia mulheres de trabalharem como maquiadoras na indústria cinematográfica do país, conhecida popularmente como Bollywood.

Dois juízes consideraram a medida uma discriminação de genêro e que ela feria a Constituição do país.

Um poderoso sindicato argumentava há muito tempo que os homens precisavam destes empregos.

A Índia tem uma das maiores indústrias de cinema e televisão do mundo.

As mulheres podiam trabalhar nela como cabelereiras, mas qualquer uma que tentasse fazer maquiagem era ameaçada e até mesmo agredida.

Segundo a repórter de negócios da BBC em Nova Déli, Shilpa Kannan, nem mesmo os diretores e atores mais conceituados do países conseguiam subverter a regra.

"Uma atriz com quem conversei disse que não se sentia confortável com homens fazendo sua maquiagem corporal, mas que ela não tinha escolha", afirma Kannan.

"Produtores que desafiaram a norma pagaram multas caras e artistas tiveram seus nomes eliminados dos créditos. Às vezes, maquiadoras eram levadas para os sets discretamente, porque, se o sindicato soubesse que elas estavam lá, a filmagem poderia ser suspensa."

A maioria das maquiadoras acabavam ficando restritas a trabalhar em desfiles de moda, comerciais e casamentos.

'Sem motivo' - Nove mulheres entraram com pedido de fim deste veto na Suprema Corte em janeiro de 2013.

Uma delas, Charu Khurana, disse que aprendeu a maquiar em uma escola na Califórnia, mas que era impedida de trabalhar em Bollywood. "Trabalhei em alguns filmes, mas foi difícil", conta ela.

A corte disse à Associação de Maquiadores e Cabelereiros de Cinema da Índia para dar fim à proibição imediatamente.

"Isso não é permitido sob nossa Constituição. Por que só homens podem ser maquiadores? Não vemos razão para proibir uma mulher de trabalhar com isso se ela tem as qualificações necessárias", afirmaram os juízes.

"Estamos em 2014, não em 1935. Isso não pode continuar por nem mais um dia."

O sindicato tem uma semana para responder. Uma audiência final sobre o assunto está marcada para o dia 17 de novembro.

Fonte: http://www.msn.com/pt-br/estilo-de-vida/comportamento/%C3%ADndia-acaba-com-veto-a-mulheres-maquiadoras-em-bollywood/ar-BBd9JJV

GLOBO REPÓRTER - 18/11/2014 - Transexuais falam sobre adequação sexual e como encaram a sociedade

A transexualidade é não-identificação com o gênero de nascimento.Transformação pode acontecer na infância, juventude e até na vida adulta.
Jay Baker
No estado do Maine, nos EUA, conhecemos a família do menino Jay, de quatro anos. Foram meses de conversas por email e telefone até a entrevista. Jay nasceu Jamima e desde os dois anos começou a dizer aos pais “eu sou um menino”. A mãe do menino, Clara, conversou com ele sobre o assunto da entrevista. Ele disse que não queria conversar sobre isso. Para o garoto, este é um tema difícil.

Christopher Baker, pai do garoto, nos mostra fotos de Jay aos dois anos, vestido de pirata e com roupas de menina. Depois conta que a mudança foi muito mais fácil para seus outros três filhos do que para eles.

“Antes que pudesse formular frases completas, ele já dizia ‘eu menino’. Nós ríamos e ficávamos surpresos, só que isso mudou quando Jay não parou de chorar por três dias seguidos. Ele chorava porque queria ter um pênis e porque queria ser visto como um menino e mesmo assim eu resistia”, conta Clara Baker.

A mãe de Jay conta que queria profundamente que ele fosse uma menina e que precisou se esforçar para entender o que estava acontecendo. “Vimos como ele se transformou em uma criança muito mais feliz e isso é o que importa”, diz.

Luciano Palhano
Luciano Palhano é coordenador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidade. Ele nos leva a uma reunião no CRT/DST-AIDS, que tem o maior serviço de atendimento ambulatorial para transexuais no Brasil. As rodas de conversa são muito importantes para começar a entender o vocabulário que ainda é pouco conhecido para boa parte da sociedade, como os termos cisgênero e transgênero.

Cisgênero e quando a pessoa nasce homem ou mulher e assim se identifica. Transgênero é quando a pessoa nasce homem ou mulher, mas se identifica com o sexo oposto.

“O CRT, em 2009, nós tínhamos uma demanda de 400 ou 500 pessoas na fila. Hoje nós temos uma demanda de mais de 3.200 pessoas”, explica Maria Lúcia Macedo, psicóloga. Em média, a espera da cirurgia de redesignação sexual pelo SUS é de 10 anos. Por ano, são realizadas em São Paulo apenas 12 cirurgias. A maioria acaba fazendo a transição de maneira clandestina.

“Todo o meu tratamento foi clandestino. Desde a hormonioterapia, a cirurgia, nunca tive laudo. Isso acabada colocando gravemente a nossa vida em risco”, diz Luciano Palhano. Ansioso para se livrar da faixa que escondia os seios dia e noite, Luciano pagou R$ 6 mil por uma cirurgia. “Eu não podia ficar internado no hospital, porque era uma cirurgia não legalizada. Aconteceu do mamilo necrosar”.

Laerte
Caco Barcellos conheceu a cartunista Laerte há 30 anos. No reencontro, o jornalista pergunta como deve chamá-la. “Como você se sentir mais a vontade. Não estou corrigindo as pessoas, o que sair, saiu. Não é gafe, não é problema nenhum”, diz Laerte. Caco Barcellos a acompanha em um debate sobre sua luta contra a homofobia, preconceito contra gays, travestis e transexuais.

Laerte conta que na infância gostava de ser menino. Ela esperou 30 anos e três casamentos para se revelar uma transgênero. “Eu não aceitava, porque eu sabia qual era a verdade, que não era uma etapa”.

A cartunista perdeu um dos três filhos em um acidente de carro. A partir desse momento, a mudança começou. A transformação foi registrada em seus trabalhos.

Christian Hugo
Acompanhamos o jovem Christian Hugo da Silva em suas consultas no CRT/DST-AIDS. O jovem busca o tratamento de masculinização e, futuramente, a cirurgia de redesignação sexual. Um laudo é feito por profissionais da saúde e serve para confirmar a transexualidade de uma pessoa. Além de modificar o nome nos documentos, o laudo permite que Christian entre na fila para a cirurgia de retirada dos seios. O tratamento com hormônio masculino também precisa de acompanhamento médico.

Eduarda e Robis
Duda tem 18 anos e começou sua transformação aos 14. Robis tem 20 e começou mais cedo, aos 11. O casal se conheceu na internet. “O grupo tem trans homem e trans mulher, aí eles postam o resultado dos hormônios, comparando antes e depois, o que toma, essas coisas. Daí postei uma foto lá, veio ele. A gente começou a se falar, foi criando um afeto, sabe?”, conta Eduarda Vieira, maquiadora. “Ela nunca tinha namorado ou ficado com homem trans e eu nunca tinha ficado com uma mulher trans. Foi novo para ela e para mim também”, diz Robis de Oliveira Ramires, estudante.

Para a mãe do Robis ainda é difícil lidar com a transexualidade do filho. “Se alguma mãe falar ‘é fácil, me acostumei’, me ensina a receita. Porque eu, com dez anos, não me acostumei. Não chamo de ele, não”, diz Eliane Oliveira, mãe do adolescente.

Gisele, irmã de Robis, ajudou bastante no processo de transformação, mas de vez em quando chama o irmão de “ela”. A mãe deles diz que a fácil aceitação da menina, na época com cinco anos, facilitou sua compreensão do que acontecia. “Não tinha dois anos e já não aceitava que colocasse saia, não aceitava o rosa, não queria boneca, era sempre carrinho, brincava no condomínio só com os meninos”, conta Eliane.

Avery Jackson
No Kansas, nos Estados Unidos, conhecemos Avery, de sete anos. A mãe da menina conta que, aos cinco anos, ela começou a usar vestidos de princesa e não tirava nem para dormir. “Me forçavam a usar uma fantasia de Homem-Aranha, mas eu queria uma de menina, porque gosto de ser menina”, diz Avery. Quando perguntamos sobre a transição, a menina conta que foi difícil. “Foi difícil dizer para a minha família que eu era uma menina. Achei que eles fossem me abandonar. Agora que sei que eles me aceitam, posso ser quem eu sou”.

Para a família, não há dúvidas de que este é o caminho certo. “O melhor que podemos fazer é amá-la incondicionalmente. Se outros pais na mesma situação virem o amor que damos aos nossos filhos, poderemos ajudar a abrir seus olhos e seus corações”, acredita Tom Jackson, pai de Avery.

Quando Avery passou a ser tratada como menina, a família perdeu muitos amigos. “Os pais das crianças ficaram assustados, porque não sabiam como explicar para os filhos o que estava acontecendo e pararam de falar com a gente”, conta Debora Jackson. A família resolveu tirar os filhos da escola e hoje os dois são educados em casa. “Algumas pessoas dizem que deus cometeu um erro. Eu não acredito nisso. Ninguém é perfeito e por isso ninguém pode apontar o dedo para minha filha e dizer que ela é um monstro. Posso ver que a minha filha está feliz, que ela não deseja mais morrer, como muitas vezes desejou. Então, como mãe, sei que estamos fazendo a coisa certa”, diz a mãe da menina.

FONTE: http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2014/11/transexuais-falam-sobre-adequacao-sexual-e-como-encaram-sociedade.html